6 de mar. de 2026
Design como transformação organizacional de dentro pra fora
Entrevista com José Mello
José Mello foi um dos protagonistas da introdução da cultura de inovação dentro do Itaú, em um momento em que o Design ainda não era tratado como ferramenta estratégica nas grandes organizações brasileiras. Conversamos sobre sua transição da tecnologia para o Design, os bastidores da criação das Inovatecas e sobre como o Design Estratégico começou a ganhar espaço dentro de uma das instituições mais complexas do país.
Ao longo da conversa, José compartilha uma visão rara de quem viveu por dentro o processo de transformação cultural em uma grande corporação. Falamos sobre resistência organizacional, articulação entre áreas, construção de repertório e o papel do Design como agente de mudança — mesmo em estruturas hierárquicas e tradicionalmente avessas à experimentação.
Um relato sincero sobre visão, persistência e o desafio de transformar organizações de dentro para fora.
Boa leitura!
— Érico Fileno
O Design que nasce dos problemas reais
Quando penso na minha trajetória, percebo que ela não seguiu um caminho convencional dentro do universo do Design. Na verdade, o Design entrou na minha vida como uma espécie de epifania — algo que fui descobrindo aos poucos, à medida que me envolvia mais com os desafios reais dos negócios e das pessoas.
Minha formação foi técnica, com base sólida em Ciência da Computação e desenvolvimento de sistemas. Cresci profissionalmente resolvendo problemas técnicos, mas havia algo ali que sempre me chamou mais atenção: o impacto que aquilo tinha para quem usava.
Sou de Barra do Piraí, no interior do Rio de Janeiro, e minha jornada começou num colégio técnico, depois seguiu para uma faculdade em Valença. Em 1998, mudei-me para São Paulo, buscando mergulhar naquele novo mundo que se abria com a internet e as tecnologias emergentes. Foi lá que entrei para uma incubadora cujo objetivo era adaptar modelos de negócios estrangeiros à realidade brasileira. Eu cuidava da parte tecnológica, mas, aos poucos, percebi que minha atuação ia além do código — eu estava ajudando a moldar soluções, repensar experiências, redesenhar processos. Só não chamava isso de Design ainda.
De 2004 a 2008, tive minha própria consultoria. Trabalhei muito com bancos, ajudando a digitalizar serviços como internet banking e câmbio. Foi nesse período que a ficha caiu: o que eu fazia era Design de Negócios. Não era apenas sobre estética ou identidade visual, como se falava na época, mas sobre solucionar problemas complexos com empatia e estratégia.
O encontro com o Design Estratégico
Essa constatação me fez buscar mais conhecimento. Comecei a me aprofundar por conta própria — lendo muito, participando de seminários, fazendo cursos. Um deles, na Columbia University, teve papel central. O curso “Leading Strategic Growth and Change” me apresentou uma perspectiva do Design ligada à inovação, especialmente através das aulas da Rita McGrath. Depois disso, mergulhei em UX, conheci a Ideo e fui profundamente influenciado pelo livro Change by Design, do Tim Brown. Ali tudo se conectou.
Quando entrei no Itaú em 2008 como gerente de Projetos Estratégicos, o Design ainda não era tratado como ferramenta estratégica. Era um ambiente hierárquico, quase militarizado, onde crachás coloridos indicavam “patente” e refeitórios eram separados por nível de cargo. Mas com a fusão com o Unibanco veio a necessidade urgente de modernização. Foi nesse contexto que participei do Grupo Foco — uma equipe formada para repensar o futuro do banco. Ali surgiu a ideia de criar espaços de inovação, algo que parecia estranho para a estrutura tradicional do Itaú, mas que logo ganhou força.
A criação da área de Inovação em 2010, com apoio da Ideo, foi um divisor de águas. Nossa estratégia se baseava em três pilares: Aprender, Construir e Sonhar. Criamos a Universidade da Inovação para treinar milhares de pessoas em metodologias de Design e inovação. Lançamos a Inovateca, um espaço para conversas abertas, prototipagem, colaboração. Queríamos transformar a cultura do banco por dentro.
Foi um processo bonito, mas nada fácil. Enfrentamos resistência por todos os lados — executivos céticos, áreas que nos viam como “corpo estranho”, debates surreais sobre o que era ou não inovação. Às vezes, parecia que estávamos “abraçando árvores”, como alguns diziam.
Para vencer o ceticismo, tivemos que ser estratégicos. Criamos eventos como a Conferência Insights, que começou pequena, no auditório do Itaú Cultural, e chegou ao Auditório Ibirapuera, reunindo centenas de pessoas e se tornando uma vitrine da nova cultura do banco.
Uma das grandes fricções foi com a área de Design tradicional, ligada ao marketing. Havia um senso de “propriedade” sobre a palavra “design”, e qualquer menção a ela por outras áreas gerava conflito.
Quando o Design começou a encontrar espaço
Curiosamente, a inovação em Design começou no lugar mais improvável: o mercado de capitais. Com a chegada do designer Adriano Valadão e da pesquisadora Cris Bisland, conseguimos aproximar mundos que antes não conversavam. Foi o início de uma colaboração verdadeira entre Design tradicional e inovação.
Projetos como o “Itaú Mulher Empreendedora” mostraram que era possível integrar diversas áreas, cocriar, romper silos. Mas tudo isso exigia energia, paciência e visão de longo prazo. E, mesmo assim, muitas ideias ficaram pelo caminho. Por mais bem estruturado que fosse nosso processo, a tecnologia — com sua complexidade e prioridades — muitas vezes nos impedia de implementar soluções com agilidade. Um exemplo foi o cartão-mesada: uma ideia simples, bonita, mas sem “escala” o suficiente para ser priorizada.
Mesmo assim, fomos criando uma rede de inovação dentro do banco. As Inovatecas se espalharam. Áreas como varejo, empresas e personalité formaram suas próprias células. A semente estava plantada. Mas, com o tempo, veio também a cobrança por resultados concretos. Tivemos cerca de um ano e meio de “período de graça”, até que os executivos começaram a pedir ROI, entregas, validações. Foi quando o apoio de líderes visionários como Alfredo Setúbal fez a diferença. Ele entendia que transformação cultural leva tempo — e que o impacto do Design vai além de métricas imediatas.
Em 2012, tirei uma licença do banco para estudar fora. Ainda assim, mantive os laços com a equipe e organizei um roadshow pelos Estados Unidos, visitando empresas e escolas com o time. Ao voltar, conectamos o Itaú com o IID e trouxemos alunos para atuar como consultores. A cultura da inovação estava se espalhando, organicamente. Mas também percebi, com o tempo, que precisávamos de mais clareza sobre o que era “Design” no banco. Evitamos a palavra por muito tempo para proteger nossos projetos, mas isso acabou criando confusão.
O que ficou desse ciclo de transformação
Hoje, olhando para trás, vejo que foi um período de intensa construção. O Design no Itaú passou por ciclos de avanço e recuo, de entusiasmo e incerteza. Mas algo se consolidou. A visão do Design como força estratégica começou a ganhar corpo — mesmo que lentamente, mesmo que entre altos e baixos. E isso é o que importa.
Acredito que o Design ainda tem muito a oferecer às organizações. Não como uma disciplina operacional, mas como uma lente para enxergar o futuro, articular estratégias e humanizar as relações com clientes, colaboradores e a sociedade. O desafio agora é superar a ressaca de um tempo de hype e reencontrar a essência transformadora do Design — com humildade, consistência e propósito.

José Mello
Executivo de tecnologia e inovação com mais de 25 anos de experiência liderando a prática de inovação em empresas como Banco Itau, Liberty Seguros e Prudential. Foi um dos pioneiros na aplicação do pensamento do design como estratégia de negócio no Brasil. É graduado em tecnologia pela FAA-RJ, possui mestrado em Design pelo IIT-Institute of Design em Chicago e MBA executivo pelo IMD da Suíça
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Um dos principais nomes da inovação digital e do design estratégico na América Latina. Com três décadas na interseção entre tecnologia, design e negócios, construiu carreira sólida em empresas como Itaú, Visa, EY, CESAR e sua consultoria, além de fundar iniciativas pioneiras em UX, CX e design de serviço no Brasil. Natural de São José dos Campos (SP), cresceu em ambiente de forte influência tecnológica e acadêmica. Jovem, estudou Informática e foi assistente de pesquisa no ITA, desenvolvendo sólida base técnica. Apesar do viés técnico, escolheu o Design como campo de atuação, graduou-se pela UFPR, fez especializações e mestrado, e se engajou em movimentos estudantis e projetos de transformação social.
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