Manifesto de Designers Gambiarristas

Gambiarra, inovação e pensamento decolonial para criar soluções reais, acessíveis e conectadas ao contexto social.

O Design brasileiro, de forma geral, foi constituído à sombra da “metrópole”. Ora emulando padrões europeus ocidentais, ora se colocando a serviço do fortalecimento do capital, ora replicando o que o centro econômico do país evoca, muitas vezes nos levamos a repetir formas pré-determinadas de pensar e ver projetos. 

Neste cenário periférico, designers começam a identificar nessa padronização uma barreira para gerar soluções realmente inovadoras. Cria-se uma zona de conforto em que basta copiar o Behance da vez, ser ágil em aprender novas linguagens para acompanhar e se adaptar à trend do momento que seu contrato como Pessoa Jurídica (PJ) está garantido.

Em um mercado de trabalho cujas relações de poder são afetadas pela precariedade e falta de valorização profissional, ano a ano jovens designers entram em um contexto de alta competitividade. Não há estímulo para a troca de informações entre profissionais, o que enfraquece processos de construção de uma classe coesa, que possa inclusive propor soluções que afrontem o status quo

O que este manifesto vem propor é um convite para ampliar o ponto de partida do Design brasileiro. 

Em uma população diversa, influenciada por um número enorme de culturas, em uma economia cuja distribuição de recursos é muito desigual, precisamos ressignificar fazeres e espaços no caminho de compreender melhor os problemas para os quais nos propomos a gerar soluções. 

Abraçamos a gambiarra e sua forma disruptiva de usar conhecimentos. A ideia é sempre agregar saberes, dos técnicos aos tácitos, passeando por entre livros, autores e autoras clássicos, metodologias consagradas, mas também pelo cafezinho com seu João, para quem o “problema de Design” é o que ele vive.

Aqui resgatamos Victor Papanek, que já na década de 1970 questionava a superficialidade e o impacto ambiental do Design tradicional, defendendo soluções acessíveis, sustentáveis e voltadas para necessidades reais, especialmente em comunidades marginalizadas. Essa proposta só se efetiva se o Design se propõe a ultrapassar os muros da universidade, do escritório, da metrópole. 

Em sua crítica, o autor aponta que o Design elitista e desconectado da realidade abre mão de seu impacto social. Ao criticar a cultura do consumo e o desperdício promovido pelo Design voltado apenas para o mercado, Papanek sugere a designers uma postura mais ativista e menos corporativista. 

Ao propor como um “bom design” aquele que, entre outras coisas, prioriza soluções inovadoras mesmo com recursos limitados a partir de uma perspectiva local, nos parece que o autor aprovaria a gambiarra como um meio de transformar a escassez em motor de inovação. Pensar nela como solução criativa em contextos deficitários vai ao encontro da visão de Papanek de um Design adaptável e focado no mundo real.

Outro autor que estabelece diálogo com a proposta deste manifesto é Rafael Cardoso. Ele é conhecido no cenário brasileiro tanto por seu trabalho historiográfico, em que mapeou o Design no contexto brasileiro, quanto por sua obra Design para um mundo complexo, de 2012, em que parte da premissa que o Design contemporâneo não pode mais ser entendido apenas como um campo técnico ou estético, mas sim como um fenômeno cultural, social e político profundamente imbricado na complexidade do mundo atual. 

Pensar o Design brasileiro, ou melhor, construir um Design brasileiro nessa primeira metade do século XXI, nos obriga a questionar a visão tradicional que é falha ao lidar com a diversidade e multiplicidade de realidades existentes.

Cardoso reflete sobre o papel do Design na construção de narrativas e na legitimação de discursos periféricos e decoloniais, entendendo que não há soluções únicas ou universais. É preciso abrir-se para múltiplas narrativas e formas de conhecimento, reforçando a capacidade de problematizar desigualdades e discursos. Novamente recebemos o convite para pensar nosso lugar no mundo como designers, e abraçar nossa responsabilidade para a criação de um futuro mais equitativo. 

Nessa linha de pensamento, podemos encontrar outros autores e autoras que, na busca por uma visão decolonial, aproximam o campo do Design de soluções que consideram uma gama mais ampla e plural de conhecimentos. García Canclini, ao discutir o que chama de hibridização de culturas em sociedades latino-americanas, defende que o Design deve se ver e ser visto como uma prática culturalmente situada, respeitando as múltiplas identidades com as quais lida. 

O colombiano Arturo Escobar dialoga com os autores mencionados anteriormente, já que propõe uma abordagem mais inclusiva e descentralizada, reconhecendo as múltiplas formas de saberes e práticas em comunidades não ocidentais. Ele também critica a imposição de soluções oriundas do Ocidente sobre o Sul Global, sugerindo que o Design deve ser uma prática mais relacional e local, levando em consideração as realidades e cosmovisões específicas de cada comunidade. 

Chegando ao contexto da ampliação do uso de tecnologias digitais, podemos discutir a ilusão de uma pretensa acessibilidade universal. Se, novamente, a visão parte dos centros de poder, cria-se a miragem de que todos têm acesso à internet e a smartphones de última geração. É como se houvesse um paradigma ocidental para a construção dessa identidade digital. 

Radhika Gajjala, pesquisadora indiana radicada nos Estados Unidos, ao analisar os impactos da globalização e as interações culturais no Design, explora as dimensões da área a partir de uma perspectiva intercultural e decolonial. A autora defende, assim como nosso manifesto, um Design que respeite a pluralidade de vozes, contribuindo para uma reavaliação dessa identidade digital rumo à construção de narrativas globais.

Esses autores e autoras questionam as abordagens eurocêntricas do Design e defendem uma prática mais inclusiva, que considere as diversas culturas, cosmovisões e contextos sociais. Propõem alternativas que buscam a pluralidade, a descolonização e a valorização de saberes locais, o que se alinha com as discussões sobre um Design mais ético e responsável globalmente. 

Acreditamos que, enquanto o Design for feito por pessoas e para pessoas, é possível transformarmos a realidade em que nos inserimos de forma positiva e consciente. Se as regras do jogo no Sul Global são frequentemente injustas, um Design tradicional conseguiria abarcar toda a complexidade de soluções que poderiam ser propostas? Se o sistema é excludente, é preciso encontrar formas de trapaceá-lo. Longe de ser um ato desonesto, evocamos a trapaça como uma estratégia de sobrevivência. 

O Manifesto Gambiarrista tem como principal objetivo uma proposta de mudança, reforçando a crítica ao Design tradicional que vem sendo construído ao longo do final do século XX. Queremos fazer um apelo para adoção de novas práticas, conceitos e valores que usem a gambiarra enquanto arma, assentada na multiplicidade de saberes e no olhar brasileiro, sempre treinado a “dar um jeito”. 

A limitação é potência, não barreira. Quando examinamos o processo criativo do Design brasileiro, conseguimos identificar que a falta de recursos não impede a inovação: muitas vezes a impulsiona, já que o acesso a algo já pré-fabricado nem sempre nos é possível. Criar com restrições nos ensina a encontrar soluções mais inteligentes, ágeis e acessíveis.

Nosso Manifesto tem seis premissas:

  1. Improvisar é projetar. A gambiarra não é erro, é método. O objetivo projetual é traçado e, à medida que a necessidade emerge e o recurso é escasso, a improvisação é um processo legítimo de Design. Não se iludam: para improvisar é preciso um vasto conhecimento e, sobretudo, vontade constante de ampliá-lo. Nem só de Design vive o Design; é preciso viver outras dimensões da vida humana. Muitas vezes encontraremos refúgio nas metodologias e ferramentas tradicionais, amplamente testadas. O improviso não propõe um abandono do tradicional, mas a adaptação do seu uso, um olhar para novas possibilidades para além das cotidianas.

  2. Trapaceamos o impossível. Não jogamos contra as regras, mas lutamos diariamente com a certeza de que elas não foram feitas para o nosso benefício. Questionamos quem as fez por ter clareza dos jogos de poder e das forças sociais em torno das problemáticas que nos propomos examinar. Subverter o status quo é um ato de resistência e transformação, e é isso que faremos.

  3. O centro não nos define. O Design não nasce apenas em grandes polos, sejam eles continentais, nacionais ou regionais. A periferia do capitalismo, o Sul Global e os saberes populares têm voz, método e repertório próprios; desperdiçá-los seria um crime. A diversidade a que se tem acesso quando nos afastamos do centro nos ajuda a corrigir a miopia projetual que acaba por nos levar a soluções pasteurizadas. Propomos um Design que pode emergir de qualquer lugar.

  4. Nosso Design é vivo e coletivo. O Design gambiarrista não se faz sozinho; ele se constrói no compartilhamento, na escuta e na colaboração com comunidades e culturas diversas. Inclusive, é preciso entender o próprio Design como uma comunidade plural. Não se faz Design sozinho, muito menos autocentrado. Aposte nos grupos, nas conexões. Crie sua comunidade. Você até pode não saber fazer, mas é sempre bom conhecer quem saiba. Lembre-se que as ideias são do mundo, e dividi-las as torna ainda mais fortes. É na troca que o Design se solidifica e cresce em importância, que descobrimos habilidades diferentes das nossas e que encontramos perspectivas diferentes. 

  5. Design sem amarras. Métodos importados não definem nossa prática. O Design gambiarrista é livre para criar suas próprias regras e metodologias. Processos projetuais que trabalham com metodologias híbridas e modeladas à situação são características do fazer projetual do Design há décadas. Nada se perde, tudo se reinventa. Reaproveitar materiais, conceitos, tecnologias e métodos é um ato de inteligência projetual. Tenha em mente que, para reaproveitar, é preciso conhecer.

  6. Resistimos criando. O Design que propomos nasce como ferramenta de transformação. Na precariedade, reinventamos o mundo – e é assim que mudamos o jogo. E nenhuma mudança se faz sozinha e em mar calmo. Em meio a tantas necessidades, precisamos ocupar o espaço de construção social, colaborando para a consolidação de uma cultura mais ampla, uma sociedade mais respeitosa, em que soluções surjam para problemas e não apenas para o lucro de algumas pessoas.


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Professora do curso de Design da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e pesquisadora do Laboratório de Experimentação em Design (LED), coordenado por ela e pela professora Juliana Donato desde 2016. Sua trajetória passa pelo Design Gráfico, pela Cultura Visual e pela Comunicação. É doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), onde investigou jogos de MMORPG e a relação entre avatar e corpo físico, pesquisando videogames, metaversos, avatares, e a forma como percebemos o corpo na era digital. Formada em Design Gráfico e mestre em Arte e Cultura Visual na Universidade Federal de Goiás (UFG), sempre pesquisou cultura pop e seus desdobramentos. Seu trabalho flutua entre Design, Comunicação e Cultura digital, com um olhar especial para a cibercultura, cultura pop, imaginário e cultura visual. Atualmente, pesquisa metodologias para criação em Design e Comunicação. O interesse está em entender como nos conectamos, criamos e nos comunicamos nesse mundo cada vez mais digital – e como o Design pode potencializar tudo isso.

Livros de Design que amplificam e potencializam a voz do Design brasileiro.

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